ARCHIWOOD by Banema®
Miolo-11.jpg

Blog

A ENGENHARIA DA MADEIRA

manuel-graca-dias

NEM TODOS SABEM PROJETAR E CONSTRUIR EM MADEIRA

A utilização da madeira na construção, e nomeadamente na construção de casas, está a crescer. Mas porquê? Alguns defendem que são as preocupações ambientais as grandes impulsionadoras deste renascimento do interesse na construção em madeira. Quem ainda não leu ou ouviu o argumento que se utilizou madeira numa construção porque a madeira é um material natural, sustentável? É um facto, a madeira é um dos materiais mais sustentável (senão o mais) que a Humanidade dispõe para utilizar na construção das suas habitações.

Para outros, é a reabilitação a grande justificação para o aumento da utilização da madeira no sector da construção. Como a maioria do património construído possui elementos de madeira, seja nas coberturas, nos pavimentos ou nas paredes, é inevitável a necessidade de intervir nas madeiras presentes nas construções existentes. E como os custos são cada vez mais controlados, há desde algum tempo a preocupação (que não existia nos anos do boom da construção) em perceber se manter o que existe, mesmo que seja necessário reparar e/ou reforçar, não será mais barato que demolir e substituir por novo. Nem sempre é mais barato manter a estrutura existente em madeira. Mas é certo que é crucial para tal decisão uma adequada avaliação da estrutura de madeira existente.

Mas há competência técnica disponível no mercado nacional para dar resposta a estas necessidades? Para além do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, das Universidades do Minho e de Coimbra, já existem no mercado várias empresas que dispõem os meios técnicos e humanos necessários para proceder a uma adequada avaliação das construções existentes de madeira.

E se pretender contruir em madeira em Portugal tenho que recorrer a uma empresa estrangeira ou já há empresas nacionais que me asseguram todo o apoio técnico? Sim, é possível. São já várias empresas Portuguesas que se dedicam ao projeto, construção e manutenção de construções de madeira, sejam novas ou existentes. Mas estas empresas possuem os meios técnicos necessários? Na verdade, as empresas Portuguesas dedicadas à construção em madeira estão bem cotadas em mercados exigentes como é o Francês ou o Espanhol. Mas, se existem, porque é que a sociedade civil não as conhece? Estas empresas só atuam no mercado estrangeiro? Estas empresas estão presentes no nosso mercado, mas efetivamente o peso das exportações no seu valor global de faturação é muito significativo, em média, bem superior aos 50%. E, nos mercados externos as construções que realizam apresentam uma maior exigência técnica, tratando-se essencialmente de construção multifamiliares. Na Europa, principalmente no Norte e no Centro, as construções multifamiliares em madeira denotam um crescimento exponencial, assente quer na redução dos impactos ambientais quer na rapidez de construção que leva sempre a uma redução de custos. Em muitos casos a madeira é aplicada na estrutura não sendo visível pelo que o seu valor estético não é a razão que leva à sua utilização.

Mas, se temos competência técnica e serviços que nos permitem construir com madeira na Europa em mercados exigentes onde a madeira está presente em construções arrojadas, porque é que em Portugal não construímos mais em madeira? Não há uma resposta única. São vários os fatores. Primeiro, por falta de conhecimento. Não só da sociedade civil que nem sequer equaciona a madeira quando pensa em comprar uma habitação, como da própria comunidade técnica que na sua grande maioria não teve qualquer formação na área.

A sociedade tem a ideia errada que se é em madeira, tem que ser mais barato. Enganam-se. A solução em madeira pode ser mais barata, efetivamente, mas não é a regra. E depois, quando se comparam soluções alternativas, é preciso ter em atenção os critérios selecionados, a qualidade final tem que ser a mesma. E, muitas vezes, a solução em madeira não é competitiva ao nível dos custos porque a solução técnica selecionada não é a melhor. Se as soluções em madeira não fossem competitivas, como se explicaria que países desenvolvidos as usem cada vez mais?

Por cá, o Arquiteto até gosta da madeira e até poderá prescrever a utilização da madeira, mas depois, com o decorrer do processo, e como se sente desapoiado em termos técnicos, não arrisca e altera a sua ideia inicial e não utiliza a madeira. Sente-se desapoiado porque não está devidamente acompanhado. A competência técnica existe em Portugal, mas a verdade é que nem todos sabem projetar e construir em madeira. E quando se utiliza um material natural, que varia de espécie para espécie, que varia ao longo da mesma árvore, o detalhe, o pormenor construtivo e o conhecimento do material em si, é fundamental. Não basta simplesmente escolher um produto do catálogo. É preciso conhecê-lo para poder potenciá-lo e evitar que as suas performances sejam condicionadas por erros de conceção e/ou construção.

Com o aumento da sua utilização surgem mais empresas, mais técnicos com consequências positivas para a economia. Por outro lado, com o interesse pela madeira aumenta a curiosidade da sociedade (promotores imobiliários, donos de obra, etc.) e as necessidades de formação técnica para responder aos desafios que essas novas aplicações implicam. Foi isto que sucedeu há já algumas décadas na Europa e que está agora a chegar a Portugal.

Neste contexto chamo a atenção para a recente criação da Associação Portuguesa de Construção em Madeira e Derivados que pretende contribuir para a dinamização do sector da construção em madeira apoiando-se em duas linhas de ação: i) Comunicar e ii) Formar. Comunicar com a sociedade civil para que haja mais informação sobre o que o sector faz e pode fazer pela sociedade. Divulgando exemplos, possibilidades para que a sociedade reconheça a madeira como um material de construção. Mas também comunicando entre pares, para que as nossas empresas possam agrupar sinergias e assim aumentar o seu impacto quer a nível nacional como internacional. Formar porque há ainda uma grande falta de conhecimentos técnicos no meio. Se o meio técnico conhecesse melhor a madeira e os seus produtos derivados, seria bem mais fácil demonstrar a competitividade deste material.

2017-07-04

Prof. Jorge Branco

 

ARQUIVO

 

PRÓXIMAS SESSÕES